Para além da segurança: como a complexidade está a levar as empresas ao limite
A conversa em torno da cibersegurança centra-se, habitualmente, nos ataques. Falamos de ransomware, phishing e vulnerabilidades críticas — mas existe um problema muito menos visível que está a limitar a capacidade de resposta de muitas organizações: a complexidade operacional.
Atualmente, uma única empresa pode depender de dezenas de ferramentas de segurança, gerir cargas de trabalho distribuídas por vários fornecedores de cloud, administrar centenas ou milhares de identidades digitais e dar suporte a colaboradores que se ligam a partir de qualquer lugar. Em teoria, cada nova solução reforça a segurança. Na prática, acrescenta também mais consolas, mais políticas, mais alertas e mais processos para gerir.
A dada altura, chega-se a um ponto crítico em que o esforço necessário para gerir tudo começa a ultrapassar a capacidade da equipa de segurança. É por isso que Bruce Schneier e muitos outros especialistas em segurança têm defendido a ideia de que “a complexidade é inimiga da segurança”.
Esse é o verdadeiro desafio.
De acordo com a investigação global da WatchGuard, quase 3 em cada 4 organizações sofreram pelo menos um incidente de cibersegurança no último ano — como malware, phishing ou acesso não autorizado. No entanto, o dado mais revelador não é apenas o volume de ataques, mas o contexto em que ocorrem. As equipas já estão sobrecarregadas, tentando garantir visibilidade em ambientes cada vez mais distribuídos. Além disso, mais de metade destas organizações necessita atualmente de monitorização e suporte 24 horas por dia, 7 dias por semana, sobrecarregando por completo modelos internos que simplesmente não foram concebidos para funcionar de forma contínua.
O problema não é a falta de talento
O estrangulamento não resulta da capacidade das equipas nem da falta de ferramentas. É estrutural. Quando uma organização começa a ficar para trás na resposta a incidentes, a tendência é atribuir imediatamente o problema à falta de recursos humanos.
No entanto, esta explicação é demasiado simplista.
Muitas equipas já contam com profissionais altamente qualificados. O verdadeiro problema é que estes profissionais já não dedicam tanto tempo à identificação de ameaças. Em vez disso, passam grande parte do seu tempo a correlacionar alertas, investigar falsos positivos, manter integrações entre ferramentas, produzir relatórios de conformidade e coordenar respostas entre equipas.
Por outras palavras, estão a trabalhar para manter o ecossistema de segurança operacional, em vez de dedicarem esse tempo à redução efetiva do risco.
Embora 55% das organizações considerem que as suas equipas têm recursos humanos adequados, a carga operacional associada à cibersegurança está a crescer mais rapidamente do que a capacidade destas equipas para a absorver.
Não é por acaso que 67% das organizações afirmam necessitar de apoio adicional para cumprir os requisitos de conformidade e mais de metade requer capacidades de monitorização contínua. A carga operacional atingiu um novo patamar. A segurança cresce através da acumulação: cada nova ferramenta, controlo ou processo acrescenta outra camada de gestão, correlação e complexidade de resposta.
A complexidade como estrangulamento operacional
A adoção de múltiplas soluções de segurança, serviços cloud e ambientes distribuídos deu origem a ecossistemas fragmentados.
Uma ferramenta para o e-mail.
Outra para os endpoints.
Outra para as identidades.
Outra para a cloud.
E outra para a monitorização.
Cada uma destas decisões fazia sentido quando analisada individualmente. O verdadeiro problema começa quando todas precisam de funcionar em conjunto. O resultado é uma realidade que qualquer CISO reconhecerá de imediato:
- Mais alertas, mas com menos contexto acionável.
- Visibilidade fragmentada entre sistemas que não estão ligados entre si.
- Maiores exigências de conformidade, mas menos automatização.
- Mais incidentes, mas menos capacidade para assegurar uma resposta contínua.
Com o tempo, cada vez mais esforço é desviado da redução do risco e canalizado para a gestão da própria complexidade do ambiente.
A segurança começa, assim, a depender mais da capacidade de escalar as operações do que de manter um controlo centralizado sobre cada componente.
A IA acelera o risco e a pressão operacional
A inteligência artificial está a acelerar este cenário em ambas as frentes, acrescentando uma nova camada de pressão.
Os agentes de ameaça já utilizam IA para automatizar campanhas de phishing, gerar conteúdos mais convincentes e acelerar determinadas fases do reconhecimento. Ao mesmo tempo, as organizações esperam que as suas próprias ferramentas de segurança respondam com o mesmo nível de automatização.
O nosso estudo reflete esta dupla realidade: 91% das organizações manifestam preocupação com ataques potenciados por IA, capazes de atuar com maior velocidade, automatização e escala. Entretanto, 44% já esperam que os seus fornecedores disponibilizem capacidades de deteção e resposta baseadas em IA.
Isto cria um desafio operacional duplo: ameaças mais rápidas e adaptáveis, acompanhadas por expectativas de respostas mais imediatas e automatizadas.
A escalabilidade é agora uma decisão estratégica
A questão já não é saber se uma equipa interna tem capacidade para responder. A questão é saber se conseguirá manter esse nível de operação daqui a seis meses — quando houver mais ativos, mais regulamentação, mais utilizadores e mais ameaças para gerir.
É por isso que cada vez mais organizações estão a adotar modelos híbridos, redefinindo o papel dos Managed Service Providers (MSP). Não porque estejam a abdicar do controlo, mas porque precisam de aumentar a sua capacidade operacional sem multiplicar indefinidamente os recursos internos.
Na verdade, 48% das organizações já recorrem a MSP para reforçar as suas capacidades internas, refletindo a consolidação de modelos híbridos de operações de segurança.
Neste contexto, os MSP disponibilizam uma camada de execução contínua que absorve parte da carga operacional — desde a monitorização 24 horas por dia, 7 dias por semana, à resposta a incidentes, passando pela proteção de ambientes distribuídos e pelo apoio em matéria de conformidade.
O seu papel vai muito além do apoio pontual. Funcionam como uma extensão da equipa interna, permitindo que a segurança acompanhe o ritmo a que o ambiente exige capacidade operacional.
Porque, no fim de contas, a cibersegurança já não consiste apenas em implementar mais tecnologia. Consiste em ter capacidade para a operar de forma sustentável.
E será cada vez mais essa distinção a determinar quais as organizações que conseguem manter a sua resiliência e quais acabam por ficar sobrecarregadas pela sua própria complexidade.